Euclides amanheceu com uma ressaca enorme e uma vergonha transcendental. Diferente daqueles que “perdem a memória” quando bebem, ele sabia tinha feito merda.
Levantou-se, cambaleante, trôpego, vendo o Mundo girar; caminhou até o banheiro segurando nas paredes. Sentiu cada gota de água tocando seu corpo e lavando sua alma; após anos de amor incontido, declarou-se, porém, acovardou-se. Ao lembrar da noite passada começou a chorar; chorou pela festa, que foi muito bonita, chorou ao lembrar da cara de surpresa dela ao receber o seu beijo, mas chorou principalmente pela sua covardia...
Saiu do banheiro e foi direto para cozinha. Percebeu que a casa estava limpa, nem parecia que ali tinha ocorrido uma festa. Na geladeira um bilhete com os dizeres: “amigo, quando ler esse recado me ligue. Assinado:
Neto”.
Neto era seu amigo mais desde sempre, dos tempos de criança. Foi
ele que lhe deu força quando o pai morreu em um acidente de trânsito aos 15 anos; foi
ele que o consolou quando Euclides descobriu o seu primeiro chifre; é
ele o amigo de todas as horas.
Antes de ligar para o amigo, preparou a alma... Sendo a amizade mais longa e a mais sincera, sabia que precisaria de toda a paciência e atenção possíveis, pois ouviria coisas sinceras, e muitas das vezes, sinceridade dói. A amizade deles sempre foi baseada no companheirismo, e isso implica em sinceridade.
A ressaca moral de Euclides lhe doía na alma... Queria mandar
Neto “tomar no cú”, mas não poderia; que moral ele tinha naquele momento para evitar algum esbregue? Então ligou... Estava na sala, com copo de águas nas mãos e uma bolsa de gelo na cabeça.
A cada chamada do telefone seu coração ficava pequeno; a tensão de saber o tamanho da merda da noite anterior lhe arrepiava a espinha... “Como você me faz isso Euclides, seu covarde?!” A pergunta/afirmação lhe cortou a alma; não tinha resposta para tal questionamento. O que venho a seguir foi como se um pai surrasse o filho. Ouvia tudo com atenção e parcimônia... Respondia apenas com monossílabos como se seu amigo estivesse ali, à sua frente.
Foram mais ou menos 20 minutos de um falando e o outro ouvindo tudo. Ao fim, a pergunta no tom que só os pais fazem aos filhos: “e aí, você está bem?”. A resposta vem feito um filho envergonhado ao pai, “sim! Estou vivo...”.
Vivo estava, mas resaqueado moralmente. Cada palavra dita por
Neto ecoava e se repetia, torturando Euclides. Queria apagar aquela noite feito um pintor querendo apagar o rabisco errado na tela; sabia que o pior ainda estava por vir... O restante dos amigos, e a mulher de sua vida que na secretária eletrônica confessava e pedia explicações.
O Mundo de Euclides se viu embaralhado; logo ele, que sempre foi tão certinho com seus sentimentos viu-se num vendaval que lhe atordoava. O que fazer agora? Como agir diante do inesperado? Eis as questões de Euclides, que se vê tendo que ser forte como um touro para exorcizar seus fantasmas mais temíveis.
Neste domingo recebi um e-mail perguntando o que havia comigo, escrevendo “confissões” através de personagens. Como respondi a pessoa, Euclides tem um pouco de mim e eu tenho um pouco de Euclides. Muito do que escrevo aqui é uma forma de re-visitar meu passado, mas não quer dizer que tenha vivido ou esteja vivenciando tais situações. Esse blog é meu “exercício diário de fingimento”, e espero que todos saibam compreender e entender isso e não levar a mais do que sugere os textos.
O
Neto existe, é o articulista do blog
Sakuxeio. É uma forma que encontrei de homenageá-lo, o que farei a partir de agora com pessoas que deixem comentários interessantes aqui. Acho legal essa troca de idéias que advém de cada post, e nada mais justo que envolver cada um na vida de Euclides.